sexta-feira, 27 de março de 2026

UM MALUNGO CHAMADO HELCIAS

Hoje (27/03) temos um importante aniversariante: o careca Helcias... normalmente, o meu painho detesta festa de aniversário e fica isolado nesta data. 

Porém, celebramos junto com ele mais um dia! Parabenizo-o por vencer várias batalhas (físicas, psicológicas e espirituais) que vem enfrentando desde o último novembro por conta das complicações com as altas taxas de glicemia e pressão; além de úlceras nos membros inferiores. 

Ele tem se reerguido como um verdadeiro guerreiro quilombola! Deus concedeu uma nova oportunidade de viver e ser feliz... portanto... desfrute, valorize e gratidão sempre! Te amo! Feliz 63 anos... que o novo ciclo venha com mais saúde e realizações.

Compartilho com vocês um artigo que eu fiz sobre a história de vida e militância de Helcias Roberto Paulino Pereira, que foi publicado na REVISTA ETNIAS - Educação e Cultura Afro-amazônica organizada pela Escola Afro-amazônica.

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UM MALUNGO CHAMADO HELCIAS

Texto: Helciane Angélica Santos Pereira – jornalista e filha do ativista alagoano


Natural de Maceió-AL, Helcias Roberto Paulino Pereira nasceu em 27 de março de 1963 (62 anos). De origem humilde, sua infância foi nos campinhos de futebol, soltando pipa e subindo em árvores nos bairros periféricos do Reginaldo e Jacintinho. Porém, começou a trabalhar cedo e aos 14 anos aprendeu o ofício de fazer letreiros em fachadas, serigrafia e placas de formatura numa empresa do ramo da comunicação visual.

É o filho caçula do Benedito e da Josefa, ambos falecidos, que o criaram com muito amor, dedicação e ensinamentos. O pai trabalhava como mestre de obras, era babalorixá (umbanda/nação ketu) e faleceu aos 72 anos após a luta contra o câncer de pulmão. A mãe foi uma verdadeira guerreira. Filha de ex-escravizados, perdeu a perna ainda criança, aos 7 anos, quando trabalhava tomando conta dos animais num velho engenho. Para sobreviver foi morar em casas de família realizando trabalhos domésticos em troca de comida e roupa. Ela era o seu maior exemplo de vida, uma mulher de muita fé que respeitava a religião do marido, mas considerava-se evangélica batista e acolhia a todos que chegavam em sua residência. Ao longo dos 95 anos transformou suas dores e vivências em sabedoria e força.


        O malungo (companheiro de luta) Helcias é um dos ativistas mais atuantes do movimento negro do Estado de Alagoas.
E mesmo sem ter diploma e títulos acadêmicos, o seu conhecimento perpassa os livros, está presente nas artes e formou-se em muitas rodas de conversa. Na juventude, amava presentear seus amigos e eternizar momentos com a produção de poesias; foi percussionista na banda afro Mandela e fez teatro de rua. Um dos seus maiores prazeres é apresentar a Serra da Barriga e contar a história do Quilombo dos Palmares.

         Diante da diversidade social e religiosa que tinha no seu próprio lar, ele sempre se considerou ecumênico, mas foi no grupo de jovens ligado à Igreja Católica do bairro do Jacintinho, em 1977, que despertou o seu olhar crítico da sociedade. Participou do mini-TLC (Treinamento de Liderança Cristã); de Encontros de Formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e cursos de verão, além da articulação da Pastoral de Juventude (PJ) e da Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP) na Arquidiocese de Maceió.

          Na década de 80 criou o Grupo de Consciência Negra MOCAMBO ANAJÔ formado por jovens comprometidos com o desenvolvimento social na Paróquia Santo Antônio, no bairro do Jacintinho, em Maceió (AL). As atividades iam além das questões eclesiais e atuavam em prol da comunidade reivindicando saneamento básico, emprego, segurança, área de lazer, transporte, educação, saúde, etc. Também conheceu a atuação dos Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs) e muitas vezes viajava apenas com a passagem de ida para participar dos encontros Norte-Nordeste e dos cursos políticos.

E nos anos 90 o seu reduto de atuação passou a ser no bairro do Feitosa quando implantou o CENTRO DE CULTURA ILÊ AXÉ – uma verdadeira casa de paz, integração e valorização da cultura afro que transformou a realidade de vários jovens. Eram desenvolvidas atividades de formação, aulões de capoeira, teatro de rua, dança e banda afro. Também fez o Curso de Teologia Afro - A prática libertadora de Jesus Cristo e o compromisso com a causa dos oprimidos. Atuou como coordenador do Escritório Nacional dos 300 anos de Zumbi que promoveu o “Trem da Liberdade”, que proporcionou o deslocamento de centenas de pessoas da cidade de Maceió até União dos Palmares, no dia 20 de novembro, uma parceria entre a CONEN, NEAB, FUNDEPES/UFAL e a Fundação Cultural Palmares/MINC.


      A partir dos anos 2000 começou a atuar em cargos políticos relevantes para a população afrodescendente. Em 2002 assumiu a Coordenação Geral de Projetos da então Secretaria Estadual de Projetos Especiais (SEPES) com empenho destacado na coordenação da Semana da Consciência Negra, na Serra da Barriga. Em 2004, foi convidado para assumir a Gerência de Projetos Afros da Secretaria Especializada de Defesa e Promoção das Minorias (SEDEM – AL), tendo a oportunidade de representar o Estado na formação do Fórum Intergovernamental de Política de Promoção da Igualdade Racial (FIPPIR/NE) e no lançamento do Plano Nacional de Políticas de Promoção pela Igualdade Racial (PLANAPIR) em Brasília; atuou como Diretor do Departamento de Arte e Cultura da Secretaria Municipal de Educação de Maceió (SEMED); e foi Diretor Cultural e Geral do CAIC Virgem dos Pobres.


      Também foi membro do Conselho Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), representando os Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs); Assistente Técnico na representação regional da Fundação Cultural Palmares (FCP) em Alagoas. Foi consultor na idealização, articulação, sensibilização e construção do Parque Memorial Quilombo dos Palmares – primeiro equipamento afro-arquitetônico das Américas, no platô principal da Serra da Barriga, em União dos Palmares.

A sua história de vida confunde-se com o próprio movimento social negro. É membro-fundador do CENTRO DE CULTURA E ESTUDOS ÉTNICOS ANAJÔ (fundado em 2005) e foi coordenador nacional dos APNs cujos integrantes considera como sua própria família. Atualmente, é coordenador de conteúdo e facilitador cultural do projeto Vamos Subir a Serra; idealizador dos projetos Palmares in Loco e do Tambor Falante; e coordena o projeto Cultura Viva: Saberes em Movimento.


Durante a pandemia da Covid-19, o educador social buscou se reinventar e se capacitar. Por meio de aulas online concluiu em 2022 o curso técnico de guia de turismo pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e se especializou em passeios e excursões que exaltam o afroturismo, a identidade cultural e a valorização da história do Quilombo dos Palmares.

Devido a sua dedicação e representatividade, já recebeu várias homenagens e curiosamente é o único ativista negro agraciado com duas comendas étnico-raciais concedidas pela Câmara Municipal de Maceió: A Comenda Dandara em 2010 e a Comenda Zumbi dos Palmares em 2012. Ambas, são concedidas para instituições públicas e privadas nacionais e locais; para personalidades, inclusive, in memorian – em reconhecimento à contribuição nas ações relativas à luta pela Diversidade Étnico-racial no âmbito do município de Maceió.

Em novembro de 2025, o careca Helcias teve que dar uma pausa no trabalho e na militância para cuidar da sua própria saúde. Justamente, no mês da Consciência Negra, no período do ano que mais acompanha visitantes e turistas de várias partes do mundo para conhecer a Serra da Barriga, e é constantemente convidado para dar palestras e entrevistas. Infelizmente, se viu preso em um leito de hospital para controlar as altas taxas da diabetes e hipertensão, além das úlceras que se formaram em suas pernas. Como um verdadeiro guerreiro quilombola, continua resistindo, contando com o amor dos seus filhos, companheira e familiares, além das mensagens e visitas de amigos(as).

Helcias é um verdadeiro griô, um guardião das histórias, um cara de sorriso frouxo, cheio de vida, que é malungo de muita gente por esse Brasil afora!