Por: José Mauro Fantoni é o fundador do Grupo Fantoni e um dos membros do Grupo Fama Educacional
Tem gente que vive cansada e não sabe explicar por quê.
Dorme e acorda pesado. Faz as coisas e continua exausto.
Olha a própria vida e ela até parece boa no papel — mas por dentro há um cansaço que não passa com folga nem com férias.
É um cansaço mais fundo. É o cansaço de carregar coisa que nunca foi sua.
A gente aprende cedo a recolher peso do chão. A culpa que era de outro. A expectativa que alguém depositou e a gente aceitou sem perceber. O problema do vizinho, do parente, do amigo — que vira nosso de tanto a gente se meter pra ajudar. E, no meio disso, a pior das cargas: a versão de si mesmo que os outros esperam, e que a gente passa a vida tentando entregar.
Chamam isso de responsabilidade. Muitas vezes é só peso mal endereçado.
Porque existe o que é seu de verdade — suas escolhas, suas contas, sua palavra, sua parte na história. Isso a gente carrega, e carrega de bom grado. Mas existe também um monte de coisa que a gente pegou no colo por hábito, por medo de decepcionar, por não saber dizer “isso aqui não me cabe”. E ninguém devolve o que não percebe que está segurando.
O engraçado é que a gente admira quem carrega tudo. Acha bonito. Acha forte. “Fulano dá conta de tudo.” Só que ninguém enxerga a coluna torta de quem carrega demais. A força que a gente aplaude, muitas vezes, é só uma pessoa cansada que não teve coragem de pousar a mochila.
E soltar não é fraqueza. É discernimento.
É olhar pra tudo que a gente vem arrastando e ter a honestidade de separar: isto aqui é meu, eu cuido. Isto aqui te pertence, e eu te devolvo com carinho, mas devolvo. A culpa que não é minha, eu solto. O julgamento que não me define, eu solto. A expectativa que alguém criou sozinho, eu solto. E, principalmente, aquela cobrança de ser tudo pra todo mundo — essa a gente pousa no chão e respira pela primeira vez.
Porque quem tenta carregar o mundo inteiro acaba não conseguindo carregar nem a si mesmo.
A maturidade, acho eu, também é isso: descobrir que ombro largo não é o que aguenta mais peso, é o que aprende a escolher que peso levar. Que dizer “não” às vezes é o gesto mais amoroso que a gente tem — com o outro e, sobretudo, consigo. Que existe um tipo de leveza que só chega depois que a gente tem coragem de largar o que nunca precisou segurar.
Ninguém nasceu pra ser depósito das dores dos outros. A gente nasceu pra caminhar — e caminhar leve, quando dá.
E você, quanta coisa você anda carregando há tanto tempo que nem lembra mais de onde veio, nem por que ainda está nas suas costas?
Fonte: Jornal O PIONEIRO (ES) - 12/07/2026 - Página 3

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